Carlos Felipe da Veiga Lima Rodrigues, o Cauli, nasceu no dia 4 de fevereiro de 1957, no Rio de Janeiro, filho de João de Deus Soares Rodrigues, urologista que trabalhou como funcionário público do Estado e federal, e Dóris da Veiga Lima Rodrigues, formada em Direito pela Universidade Nacional de Direito.
Curiosamente, seus pais se conheceram no mesmo quarteirão em Copacabana onde ele nasceu. Cauli teve um irmão mais velho, João Carlos, que se destacou no longboard pelo seu estilo e foi sua grande referência.
Cauli estudou no maternal do Juca & Chico, em Botafogo, e depois no colégio Santo Inácio, onde completou toda a sua formação básica. Posteriormente, cursou Administração e Comércio Exterior, obtendo bacharelado em ambos. Cauli começou cursando na PUC-RJ e depois transferiu-se para a SESAT. Foi lá que ele se inspirou na disciplina de Sistemas, ministrada por um militar da Aeronáutica, para aplicar na carreira, adquirindo com isso a organização e a disciplina que se tornaram eficazes para a carreira.
Sua primeira relação com o surfe foi numa Planonda, disputando com outros meninos da vizinhança quem ficava em pé por mais tempo ou chegava mais longe na areia. Entre eles estava Ronaldo Pupo Moreno. As brincadeiras se estendiam nas ruas, equilibrando-se em pé no cano da bicicleta ou sobre o carrinho de rolimã.
Nessa época dona Dóris, sua mãe, praticamente não o deixava sair do quarteirão. A praia era sempre em frente, no quarteirão onde morava e quase sempre acompanhado da dona Mariângela Rezende, mãe do Bernardinho, ex-jogador e técnico da seleção brasileira de voleibol.
Cauli começou a frequentar o Arpoador, observando uma geração pioneira do surfe brasileiro, da época da Bossa Nova, que incluía Paulete, Estrela, Arduíno Colassanti, Marco e Paulo Vale. Ele começou surfando na prancha do irmão, fabricada pelo Dentinho de Copacabana. Por volta de 1970, época em que fez parte da Turma dos Metralhinhas, Cauli com sua Surfboards São Conrado, viajou para Geribá, em Búzios, para desbravar a praia ainda virgem.
Entre 1974 e 1976, Cauli começou a competir em campeonatos locais e regionais. Em 1974, ficou na quarta colocação no torneio na praia do Quebra-mar, na Barra da Tijuca, sendo considerado o melhor backside na final da categoria júnior. Em 1976, fechou um contrato de patrocínio com um dos mais respeitados jornais do país, o Jornal do Brasil, e também, com a Rádio Cidade, fato inédito para a época. Seu patrocínio com o JB durou até 1978 e lhe rendeu a passagem para a Austrália.
Em 1976 disputou o Festival Nacional de Surf de Saquarema e alcançou o quinto lugar com o braço quebrado, e no ano seguinte, participou e conquistou de duas etapas dos Jogos Universitários Brasileiros, ganhando projeção nacional. Em 1978 venceu o Festival Nacional de Surf de Saquarema, ano que marcou a volta do Festival Brasileiro de Surf de Ubatuba, quando Cauli conquistou o vice-campeonato, e no ano seguinte sagrou-se campeão. Cauli era um regular surfer e construiu sua carreira baseada em treino intenso, disciplina e dedicação às pranchas.
Com o apoio do JB (Jornal do Brasil), Cauli Rodrigues embarcou para a Austrália em busca do reconhecimento internacional, levando consigo seu Backside Attack desenvolvido nas ondas do Rio. Ao chegar, acompanhado de Pepê, percebeu rapidamente o impacto de sua presença. Surfistas estrangeiros notaram os atletas de fora do eixo tradicional do surfe – Califórnia, Havaí, Austrália.
Em outra oportunidade, já no início dos anos 1980, Cauli ficou hospedado na casa de Jim Banks, que o apresentou a dois jovens talentos que estavam começando a despontar: Mark Occhilupo e o norte-americano Tom Curren, que mais tarde se tornaria um dos maiores ídolos da história do surfe.
Cauli relatou que ficou impressionado ao ver Curren treinar. O estilo fluído, os movimentos precisos, a flexibilidade e a leitura de onda impecável o deixaram com a sensação de que o nível do surfe mundial havia atingido um novo patamar. À direita brilhava Curren; à esquerda, a força do sufe indomável de Occhilupo. Era a vanguarda do surfe no auge de sua evolução estética e técnica.
Mesmo diante dessa geração extraordinária, Cauli não se intimidou. Na sua temporada australiana de 1983, pelas triagens do Straight Talk Tires, uma etapa de grande prestígio na Austrália, em Cronulla Beach, ele venceu todas as baterias até a final. Liderava com folga e estava a poucos minutos de se tornar o primeiro brasileiro a conquistar um evento de triagem no país, quando um episódio controverso mudou tudo: Russel Lewis, que estava em último, acusou Cauli de puxar sua cordinha. A acusação, absurda e sem sentido, acabou acatada pelos juízes, que desclassificaram Cauli e deram o título a Wes Layne. A frustração foi profunda.
Esse caso não foi isolado. Cauli enfrentou sucessivas distorções de julgamento, tanto fora quanto dentro do Brasil. Muitas vezes, seus resultados eram alterados por localismo, desinformação ou, como ele mesmo testemunhou, até por julgamentos conduzidos por juízes alcoolizados. Em outro episódio, ouviu de um árbitro brasileiro que nunca daria nota alta a um surfista carioca “por princípio”. Era a confirmação de que, apesar de seu nível técnico, o sistema estava disposto a barrá-lo.
Mesmo assim, Cauli foi pioneiro: participou da fundação da ASP – Association of Surfing Professionals, sendo o único brasileiro presente e o primeiro a pontuar na entidade que mais tarde estruturaria o surfe mundial moderno. No Brasil, tornou-se um dos nomes mais competitivos do circuito nacional, tendo como grande rival o talentoso Roberto Valério.
Juntos, fundaram a Cyclone, marca histórica do surfwear brasileiro, ideia originalmente batizada por Cauli após ver o nome em uma revista australiana. Por uma questão de registro, começaram com “Cylinders”, até que Cauli transferiu a marca para Valério, que se associou Mauro Taubman à Company que incorporou a Cyclone, transformando-a em uma gigante do setor.
Cauli integrou a criação da OSP (Organização dos Surfistas Profissionais), ao lado de nomes como Valdir Vargas, Rosaldo Cavalcanti e Fred D’Orey, Ian Roberts — um passo decisivo na tentativa de profissionalizar o esporte no país.
Em 1985, escreveu seu nome definitivamente na história ao se tornar o primeiro campeão carioca de surfe profissional, num circuito duríssimo, repleto de talentos como Marcus Brasa e Marcelo Bôscoli. Para Cauli, mais do que o troféu, o importante era entrar para a história — e ele entrou. Entre 1977 e 1985 foi um dos surfistas mais competitivos do Brasil.
Ao longo desse período Cauli atraiu diversos patrocinadores, entre eles JB, Rádio Cidade, USTop, Yso Amsler, Cristal Graffiti, Armação. Na Austrália ele recebeu o apoio da Peak e da Emerald Surfboards.
Cauli Rodrigues completou 68 anos e segue surfando nas praias do Arpoador, do Diabo ou do Posto 5, em Copacabana. Quando não tem onda ele mergulha na Urca ou pratica a pesca submarina.
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Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi – o Pardhal.









