Museu do Surfe

Fedoca na Brasil Surf

Coluna Museu do Surfe, de Diniz Iozzi e Gabriel Pierin, apresenta história de Fedoca Lima, surfista e fotógrafo carioca que fez história ao sair na capa da Brasil Surf em 1975.

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Fernando Mendonça Lima nasceu em Copacabana, Rio de Janeiro, em 15 de fevereiro de 1954. Dentre os vários homônimos da escola, ganhou cedo o apelido Fedoca que se fixou como identidade. Filho do carioca Alcides, funcionário do Banco do Brasil, e de Sofia Beatriz, carioca com raízes no Rio Grande do Sul e ascendência italiana, Fedoca cresceu ao lado dos irmãos Pedro e Cynthia, a um quarteirão da praia, no Posto 5, onde descobriu o mar como extensão natural da infância.

O surfe foi sua primeira linguagem. Em 1965, aos 11 anos, fez sua prancha de fibra com o Coronel Parreiras, em São Conrado. Fedoca morava em frente ao mestre do jiu-jitsu Hélio Gracie, e Relson, um de seus filhos ícones da arte marcial, começou a surfar inspirado ao vê-lo carregar a prancha. Ao lado dos irmãos Proença e dos Pacheco, João Moreno, Betão, Bocão, Cauli, Daniel Friedmann, João Príncipe e tantos outros, Fedoca formou as primeiras amizades do mar. Mas enquanto surfava, já se desenhava em paralelo uma segunda vocação: o olhar de fotógrafo.

O ano de 1968 foi decisivo. No Brasil, a ditadura recrudescia; no mundo, Paris e Vietnã agitavam consciências. Com apenas 14 anos, Fedoca pegou a câmera alemã Futura de seu pai e descobriu que podia congelar instantes. Sua primeira fotografia marcante foi a passagem da Rainha Elizabeth pela Avenida Atlântica. Pouco depois, registrou o irreverente Mick Jagger, saindo do quarto no Copacabana Palace, oferecendo-lhe o dedo do meio. O acaso transformava-se em destino: entre surfe e juventude, nascia um fotógrafo.

O pai montou um laboratório de revelação em casa e lhe ensinou os segredos da fotometria, da profundidade de foco. Fernando passou a carregar o equipamento no pescoço como quem carrega uma bússola. O surfe continuava a partir do Arpoador – ponto de encontro de toda uma geração, depois Píer de Ipanema, Cabo Frio e Saquarema, mas a fotografia se tornava cada vez mais central. O Píer, além de palco para manobras, era cenário perfeito para experimentar lentes e composições. Na década de 1970,
Fernando ampliou horizontes. Fotografou campeonatos no Peru, viagens a Ubatuba, acampamentos em Saquarema.

Em 1974, Alberto e Flávio estavam envolvidos com uma nova revista, a primeira publicação dedicada ao surfe no país, que chegou às bancas em abril de 1975. Fedoca fez história ao sair na capa da terceira edição da Brasil Surf, nas lentes de Rogério Ehrlich.

Ainda em 1975, Fedoca explorou a Ilha do Mel e a Guarda do Embaú, registrando ondas ainda intocadas. Dois anos depois, partiu para a América Central — Barbados, Porto Rico e El Salvador —, trazendo imagens raras de mares que, na época, poucos brasileiros conheciam.

O salto definitivo veio com o Havaí, entre 1978 e 1981. Ali, Fernando viveu a intensidade máxima do surfe mundial: Waimea, Pipeline, entardeceres em que tubos de seis a oito pés se transformavam em catedrais de luz. Ele surfava, mas sobretudo fotografava. Registrava amigos, ondas e a atmosfera única de um tempo em que o surfe era descoberta e magia. Suas imagens se espalharam em revistas, ajudando a construir a memória visual daquele período.

Paralelamente, sua lente encontrou outro palco: a música. Rock e surfe se entrelaçavam, e Fedoca fotografou shows históricos. Estava diante de Rita Lee em Saquarema, Bob Marley, Rolling Stones, Paul McCartney, Simple Minds, Paralamas, Lobão e tantos outros. Dos tubos às guitarras, sua câmera atravessava mundos, sempre em busca do instante que não se repete.

No ano 1996, viveu em Bali, produzindo reportagens para as revistas brasileiras Hardcore e Fluir. Em 2005, foi sócio do Click Surf, pioneiro portal a mostrar em tempo real as praias e ondas cariocas, do Leme a Grumari.

Com o tempo, Fedoca reduziu as remadas, mas não o olhar. Em 2024, no dia do seu aniversário, viu da areia o maior Waimea de sua vida — testemunho de quem atravessou décadas acompanhando o mar, a música e as transformações de uma geração. Fedoca, que é pai de Rodrigo, também surfista, e de Bento, um botafoguense apaixonado pelo jogo de tênis, vive no Recreio, com sua esposa Tania, cercado de tranquilidade, ruas arborizadas e a mesma brisa do oceano que guiou seus passos desde a infância.

Sua história é a de um homem que uniu duas paixões. Surfista que viveu o auge do Píer, mas sobretudo fotógrafo que registrou a alma de sua época, ao lado de outros grandes nomes da fotografia como Klaus Mitteldorf, Mucio Scorzelli, Fred Koester, Tonico De Biase, Nilton Barbosa, entre outros. Entre ondas e palcos, Fedoca fez da câmera sua prancha definitiva — instrumento para deslizar sobre o tempo e guardar, em imagens, o que o mar e a vida têm de mais efêmero e eterno.

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Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi – o Pardhal.