Marcelo Fukuda nasceu em Santos, em 1º de outubro de 1957, trazendo no nome a herança de seu avô materno Manabu, que atravessara o mundo no navio Kanagawa-Maru, deixando o Japão, em 1912, para aportar no Brasil após cinquenta e dois dias de mar. A resiliência com a mudança de mares e marés moldaria o destino dos Fukuda.
Foi no verão de 1968 que Marcelo sentiu pela primeira vez o chamado das ondas. O primo
Wanderlei, o Milica, que formava na turma do Conde do Mar, lhe sugeriu como presente de
Natal uma prancha caixote fabricada artesanalmente em uma carpintaria de Santos. Entre
quedas e risos no Canal 3, dividindo a prancha com o irmão Márcio, a magia aconteceu:
Marcelo ficou em pé sobre a prancha e deslizou alguns segundos em direção à praia.
No Natal seguinte veio a prancha Scorpius, criada por Homero. E foi na pequena fábrica do
lendário shaper que Marcelo conheceu o universo estampado nas revistas estrangeiras Surfing e Surfer. O mar se tornava cultura, linguagem e tribo.
Do Colégio Canadá, onde estudou nos anos 70, vieram os companheiros que também viviam de água salgada: Pedro Vazquez, Toni Barletta, Chico Preto, os irmãos Cangiano, Luiz Pierry, Nicola, Decio Dias, Mario “Casca”, Cisco, Carlinhos Horácio, Zé Maria, Fabio Boturão (Jacuí), entre tantos outros. A irmã de um desses amigos, o Ronildo, era comissária de bordo da Pan Am, e foi através dela que eles tiveram contato com os primeiros produtos de surfe, como bermudas, roupas de borracha, parafina, etc. Ronildo viria a ser proprietário de uma conhecida surf shop em Santos, a Roni Surf. Era um grupo unido pelas ondas, que transformava cada carona na balsa e caminhada pelo atalho – hoje avenida Caiçara — em jornada épica até a praia do Tombo, no Guarujá.
A mãe, péssima motorista, foi cúmplice na aventura, quando comprou um Fusca azul 68,
apelidado de Pulgueiro. Aos 15 anos, era Marcelo quem guiava o carro até o Guarujá, com os amigos surfistas amontoados no banco de trás e a mãe no banco da frente, pronta pra assumir o volante caso cruzassem uma blitz. O carro foi passaporte para novas descobertas, como a Praia do Pernambuco, amor à primeira vista pelas suas esquerdas rápidas e tubulares. Uma epopeia que tornou a praia frequentada pelos santistas ao longo de gerações.
A bordo do Pulgueiro, seu Fusca Azul, Marcelo Fukuda construiu as memórias de sua juventude pela estrada até Ubatuba, palco dos primeiros Festivais Brasileiros de Surfe, onde acampava como um nômade de areia em areia. Em se tratando de campeonatos, Marcelo conquistou um quarto lugar no Estadual do Tombo, mas não era nas medalhas que encontrava sentido. Seu talento se revelava em outra arena: a arte. Pintava camisetas à mão, vendidas aos amigos, até que seu traço chegou as vitrines das primeiras surf shops de Santos. Assim, tornou-se um dos pioneiros do surfwear brasileiro.
Da Mansurf, dos irmãos Elias, Wady, Fuad (Fuwax) e Tuca à Wagon do Celsinho e OP do
Sidão, da HD do Jackson à Town & Country, sua arte se espalhou. Com José Roberto Rangel, tornou-se sócio da T&C Brasil, onde criou anúncios, desenvolveu produtos e, sobretudo, a vitoriosa equipe T&C, comandada pelo seu irmão Márcio Kabeha e formada pelos irmãos do Tombo, Neno, Paulinho e Amaro, entre outros campeões. Fukuda construiu pontes entre o Brasil e o Havaí, no processo de licenciamento da marca. Foram anos de negociações, encontros com shapers renomados e surfistas lendários, viagens que misturavam negócio, mar e amizade.
Como designer, desenvolveu logotipos para a Associação Santos de Surf e fábricas de pranchas tradicionais como a Tropical Brasil, Shine, Star Model e Zampol, entre outros trabalhos.
Paralelamente, formou-se arquiteto pela FAUS, Unisantos, em 1982. O traço que um dia
desenhara camisetas passou a projetar lojas e espaços para marcas como Quiksilver, Billabong, Rip Curl, Vans e Sthill. Fukuda arquitetava sonhos de concreto, mas sempre com cheiro de maresia.
O artista percorreu o mundo atrás de inspiração e ondas perfeitas. Em 2009 viveu uma odisseia inesquecível com os amigos Toni Barletta, Giba, Claudião, Juninho, Wagnão, Mark Juizwiak, Sergio Cangiano, John Wolthers, além de Rogério Biral, Bayard e o fotógrafo Denis, em Mentawai, a bordo do catamarã King Millenium, viagem que rendeu um encontro inusitado com o ídolo daquela geração, Gerry Lopez – dias que se tornaram capa da Alma Surf.
Com a arte eternizou o movimento do mar. Pinturas a óleo e acrílico ganharam paredes de
amigos, exposições na Pinacoteca Benedito Calixto e espaços descolados de São Paulo e Santos.
Entre telas e ondas, Marcelo Fukuda construiu um universo próprio, onde a arquitetura do traço se mistura ao desenho líquido das marés.
Hoje, quase aos 68 anos, Fukuda, que é pai de Adriana, Mariana e de João Francisco, ainda
desliza nas ondas da Praia de Pernambuco e na Prainha, lado direito do Quebra-Mar, porque, para ele, viver sempre foi isso: encontrar beleza no instante em que o homem e o mar se encontram.
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Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi – o Pardhal.














