O Departamento de Defesa dos Estados Unidos anunciou uma medida que restringe o acesso global a dados de satélites meteorológicos. A decisão, justificada por “riscos de cibersegurança”, interromperá o compartilhamento de informações cruciais sobre a atmosfera terrestre e os oceanos a partir do final deste mês, reporte o UOL.
Os dados que deixarão de ser públicos incluem informações sobre tempestades, furacões, gelo marinho e mudanças climáticas. Esses dados são gerados por satélites gerenciados pelas Forças Armadas dos EUA e são amplamente utilizados por pesquisadores, cientistas e serviços de meteorologia em todo o mundo para análise e previsão do clima.
A restrição acontece em um contexto de crescente demanda por compartilhamento de dados meteorológicos, impulsionada pela maior frequência de eventos climáticos extremos. A decisão do Pentágono limita o acesso a informações consideradas essenciais para o monitoramento e a compreensão das alterações climáticas globais.
Segundo o UOL, o cruzamento de dados coletados por diferentes equipamentos é fundamental para se obter previsões confiáveis, que, em casos extremos de furacões, chuvas intensas ou secas prolongadas, podem salvar vidas.
O fim do compartilhamento foi divulgado pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), um dos mais importantes centros globais de pesquisa climática para a previsão de fenômenos como o La Niña ou o aumento da temperatura dos oceanos. Inicialmente, o fornecimento dos dados seria interrompido já no fim de junho, mas o Departamento de Defesa adiou a implementação da medida após protestos.
O NOAA foi um dos departamentos afetados pelos cortes orçamentários promovidos pelo governo do presidente dos EUA, Donald Trump. Em março, 800 funcionários do órgão foram demitidos.
Quais dados serão suspensos?
Ainda de acordo com o UOL, desde a década de 1960, os militares dos EUA analisam dados meteorológicos coletados globalmente pelo programa Defense Meteorological Satellite Program (DMSP).
Atualmente, há ainda três satélites ativos, gerenciados pela Força Aérea a partir de uma base em Nebraska, que visam “coletar e disseminar diariamente dados globais sobre cobertura de nuvens (juntamente com parâmetros ambientais oceanográficos e solar-geofísicos)”, diz o site oficial.
O sistema DMSP realiza previsões meteorológicas estratégicas para apoiar as operações militares dos EUA no mar, em terra e no ar.
Para a meteorologia, especialmente importante é o Operational Linescan System (OLS). Esses radiômetros monitoram duas vezes ao dia a distribuição global e a temperatura das nuvens.
As informações geradas pelo Special Sensor Microwave Imager Sounder (SSM/IS) também são relevantes. Trata-se de um radiômetro de micro-ondas que mede a radiação térmica da Terra e é usado para definir perfis de temperatura, de umidade e outras variáveis atmosféricas do planeta.
Todos esses dados brutos vinham sendo processados pelo Centro de Meteorologia Numérica e Oceanografia da Frota da Marinha dos EUA e disponibilizados para instituições de pesquisa e uso civil. Eles eram incorporados diariamente nos cálculos de previsões meteorológicas globais.
Perda na qualidade das previsões
Meteorologistas vivem forte pressão para encontrar dados alternativos e tentar calibrar seus modelos de cálculo de forma que continuem funcionando mesmo sem as informações fornecidas pelos EUA.
Segundo o meteorologista Peter Knippertz, do Instituto de Tecnologia de Karlsruhe (KIT), a atmosfera funciona como um sistema caótico, onde “mesmo pequenas diferenças de temperatura, pressão ou vento em locais relativamente distantes e também em momentos diferentes podem ter grande impacto”, diz ele ao portal alemão DW.
Por isso, a análise de dados em tempo real sobre a atmosfera é relevante para obter previsões mais assertivas. Para Knippertz, a ausência dessas informações representa “uma perda estatisticamente mensurável na qualidade das previsões, já que as informações de micro-ondas sobre temperatura e umidade têm um impacto desproporcionalmente grande nas previsões do tempo”.
O centro de pesquisa americano National Snow and Ice Data Center (NSIDC) será um dos impactados, comprometendo suas análises sobre o gelo do Ártico – fundamentais para definir as rotas mais seguras e economicamente viáveis para a navegação. O laboratório agora planeja recorrer a dados de satélites japoneses.
Fechamento de estação de medição no Havaí
Segundo a imprensa norte-americana, os EUA também fecharão o Observatório Mauna Loa, no Havaí, que desde 1958 coleta dados essenciais sobre a composição e mudanças na atmosfera terrestre.
Essa decisão, porém, não foi justificada pelos mesmos motivos de segurança. Como o observatório é fundamental para documentar e estudar o aumento do dióxido de carbono (CO2) na atmosfera e as mudanças climáticas, críticos alegam que o fechamento teria motivações mais políticas.
Fonte UOL
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