Museu do Surfe

Daniel Friedmann, o Pro Surf

Coluna Museu do Surfe, de Gabriel Pierin e Diniz Iozzi, presta homenagem para carioca Daniel Friedmann, primeiro brasileiro vencedor de prova no circuito mundial.

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A história de Daniel Friedmann com o mar começa antes de sua chegada ao mundo. Inicia pelos pais, o belga Simon Friedmann e a alemã Anneliese Kikoler que se conheceram em um cruzeiro nos Estados Unidos após a guerra e decidiram reconstruir a vida no Brasil. Foi no Rio de Janeiro, entre Copacabana e o Arpoador, que Daniel cresceu — cenário ideal para alguém que cedo descobriria no mar mais do que um lazer: ali nascia um caminho.

Como tantos jovens da Zona Sul, ele fez da praia uma extensão de casa. Primeiro vieram as Planondas de isopor, brincando nas ondas de Copacabana. Depois, o encantamento pelos surfistas do Posto 5, que pareciam deslizar sobre as ondas com leveza e precisão.

Ali, ainda menino, entendeu que queria fazer parte daquele universo. Sua formação passou por instituições judaicas, onde fez colegas também surfistas, como Daniel Sabbá e Schalom Grimberg — Colégio Barilam, Max Nordau, depois iniciou o científico no Brasil-América e concluiu no Anglo-Americano — e por uma rotina esportiva variada: corrida, salto, judô, capoeira, caratê, Krav Maga.

O mar, porém, chamava mais alto. A primeira prancha de madeira veio acompanhada de um susto: uma pancada forte na cabeça, seis pontos e um tempo afastado das ondas. Só que morar no Arpoador torna qualquer proibição relativa. Um amigo guardava uma prancha na sua casa, e assim Daniel voltou para onde queria estar.

Foi nesse ambiente que se firmou a Turma do 60, número do prédio da Francisco Otaviano. Nomes como Fábio Éboli, Álvaro Romana, Gil, Robertinho, Ronaldo Alvarenga, Ignacio, Roley, Bob e Alex compunham aquele grupo que marcou época. O Arpoador e o Diabo eram seus picos cotidianos; quando o mar não cooperava, ele pedalava até o Pepino ou o Quebra-Mar.

Entre uma surfada e outra, consertava pranchas — experiência que virou aprendizado técnico e uma pequena renda. E alimentava sonhos com as revistas Surfer e Surfing, observando ídolos como Gerry Lopez, Jeff Hackman, Barry Kanaiaupuni e Sam Hawk.

A primeira prancha que fabricou nasceu num quarto estreito, ao lado da cozinha do amigo Otávio, na Nossa Senhora de Copacabana. A avó deixava um lanche sempre à espera, e os dois voltavam ao trabalho até tarde. Mais tarde vieram pranchas marcantes: a George Downing 7’0 laranja e amarela, trazida do Havaí em 1973; a Ben Aipa 6’2, que refinou seu estilo; e as séries que ele próprio produziu e levou ao pódio.

A trajetória de Daniel Friedmann no surfe brasileiro é a história de alguém que nunca separou mar, trabalho e vida. Aos 16 anos já competia com intensidade, conquistando o Campeonato Carioca de 1972. No ano seguinte, em Ubatuba, tornou-se campeão brasileiro júnior, confirmando o talento que o acompanharia por décadas. Nos anos seguintes, os resultados se multiplicariam: títulos nacionais em Saquarema (1976), Joaquina (1979) e Vitória/ES (1982), além do Bicampeonato Internacional no Uruguai (1979/80) e o primeiro lugar em Stradbroke Island (Austrália, 1980).

Nesse percurso de conquistas, Daniel inaugurou um outro capítulo ligado ao surfe. Ao conhecer Gordon Clark, em 1973, Daniel trouxe ao Brasil uma licença para fabricar blocos de poliuretano — algo até então fabricado no Brasil sob licença ao Coronel Parreiras. Mais tarde a produção originaria a linha Special Foam, com fabricação própria.
Em seu auge, produziu cerca de 2 mil blocos Clark e 4 mil Special Foam, treinando todo o pessoal envolvido no processo. Essa semente daria forma, pouco depois, à emblemática fábrica New Color, responsável por blocos inteiramente nacionais e, como o nome sugere, em múltiplas cores.

Em 1974, movido pelo desejo de viver do surfe pelo mundo, partiu para o Havaí, onde competiu, trabalhou e amadureceu. De lá, rumou ao Japão, ingressando no ramo de importação de pedras preciosas — área ligada à família, mas que também estreitou sua relação com surfistas japoneses, amizades que atravessariam décadas. Retornou ao Brasil no fim de 1975, já com o projeto industrial amadurecido, dividindo seu tempo entre fábrica e competições.

O auge competitivo veio em 1977, com a vitória no Waimea 5000, etapa brasileira do Circuito Mundial, iniciada no Arpoador e finalizada no Quebra-Mar. O resultado abriu as portas para o Stubbies Classic, na Austrália, o primeiro evento homem-a-homem da história. Nesse mesmo período, Daniel lançava sua marca de surfwear, a Pro Surf – Daniel Friedmann, ampliando sua atuação como empreendedor.

Em 1979, diante da possível ausência da etapa mundial no Brasil, encabeçou — ao lado de Carlos Lorch — um confronto inédito entre equipes: Bronzed Aussies vs. Brasil Nuts, cada uma com quatro atletas. Foi sua primeira grande assinatura como organizador de eventos, prenúncio de uma longa carreira fora d’água.

As surftrips também moldaram quem Daniel se tornaria. No Peru, teve a casa arrombada e o passaporte perdido; no Havaí, viveu sua segunda casa, enquanto sentiu o impacto cultural do Japão e, finalmente, surfou pela África do Sul, Indonésia, Maldivas, Costa Rica, Chile e Uruguai.

Em uma dessas travessias, em 1977, viveu um episódio quase cinematográfico: retido em Nova Délhi com apenas US$ 60, sem visto para a África do Sul e diante de uma multa absurda por excesso de bagagem, negociou até reduzir tudo para US$ 50 — e embarcou na última hora. Uma vitória tão improvável quanto suas ondas mais críticas.

Em 1981, Daniel deixou as competições internacionais para se dedicar integralmente às suas marcas. Em 1985, por questões familiares, migrou para o ramo da hotelaria, onde permaneceu por mais de quinze anos. O afastamento, porém, não seria definitivo. Após o falecimento de Pepê, voltou para assumir a direção da etapa brasileira do Mundial. Foram 11 anos à frente do WCT no Brasil, além do Billabong Pro Junior, vários WQS e eventos da Petrobras e Ecovias.

Hoje, segue onde sempre esteve: no surfe. Mantém sua fábrica Daniel Friedmann Surfboards, organiza eventos e desenvolve ações ligadas à preservação ambiental. Porque sua vida, desde o início, nunca foi sobre deixar o mar — mas sobre encontrar novas formas de continuar dentro dele.

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Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi – o Pardhal.